quarta-feira, Novembro 07, 2012

O Espírito Motard




Afinal, o que é o "Espírito Motard"?

Para encontrar uma definição para este autêntico “cliché” do mundo motociclista, comecei pelo melhor amigo do curioso: O Google. Digitei as duas palavras “Espírito Motard” e o resultado agigantou-se (literalmente) com Gigabytes de resultados.  
Primeiro abri os links dos fóruns de discussão virtuais: grandes elocuções, grandes lições, pensamentos; muitos debates, outros tantos insultos e lições de moral. Muitas, imensas, rores de preleções e opiniões de quem se julga ou sente na posse da razão. Questões fraturantes ou de mera índole retórica como, por exemplo, a decadência do hábito do cumprimento “cívico e cordial” entre os motociclistas. Ou a transformação em mero mito, da generosidade do companheiro motard que, um dia, no meio da frustração de uma avaria, queda ou simples falta de gasolina, parou e nos deu uma “mãozinha”, uma boleia ou um cigarro seco. Sobretudo uma palavra de conforto.
De seguida, a busca apontou as agendas digitais, os blogues, os sites e novamente mais fóruns de discussão, todos eles a transcrever excertos de propaganda, publicidade, críticas ou simples conteúdo informativo, de relatos na própria ou na terceira pessoa, sobre “concentrações motards, motares ou motardes” todas elas, reivindicando para si a presença “in loco” do “verdadeiro espírito motard”.  
Em continuação, a busca foi revelando factos dispersos, acabando em eras remotas, dos tempos em que as motos eram efectivamente uma coisa de machos, de jovens mancebos cheios de adrenalina, de testosterona, a cheirarem a lubrificantes e gasolina. Pessoal com destreza suficiente para dar ao “quick” e, sem partir uma perna com o ricochete, acordar aqueles motores preguiçosos, incontinentes de fluidos, dessincronizados de ignição, fumarentos e barulhentos. Homens que tinham que vencer teimas e manias e manhas, de mecanismos e dispositivos que necessitavam manutenção constante, de muito engenho, conhecimentos e, mais ainda, de muita sorte. 
Depois apareceram os relatos de viagens, de longas voltas ao mundo, de travessias de continentes, sofridas, difíceis, mas muito gratificantes para os seus protagonistas, uma espécie de ermitas dos tempos modernos, enclausurados no seu capacete, meditando sob o mantra dos escapes, enfrentando privações e desafios quase sobre humanos enquanto os quilómetros de vão acumulando.  
Também na busca apareceram dados e factos sobre as tribos, os grupos, verdadeiras hordas de motociclistas, imbuídos da sua própria razão, realidade e estilo. Comunidades organizadas e hierarquizadas que fizeram das motos a sua religião, ou melhor, a sua crença, o seu único objectivo de vida, a sua única ambição. Comunidades normalmente lideradas por quem, de entre todos, fosse o mais inabalável, o mais convencido, destemido, esclarecido, ou, por vezes até, apenas o mais bem ou mal parecido. Tudo uma questão de estilo e de modos, e de merecer dos demais o fundamental e inquestionável "Respect”. 
Mas apesar de tudo, a busca não conseguiu revelar se apenas tem "Espírito Motard" quem, por exemplo, participar em concentrações, ou usar marcas tribais, ou for membro de um grupo ou de uma irmandade. E quem, por exemplo, gostar apenas de motocross? É mais ou menos motard do que quem gosta de fazer 1000 km por dia numa boa turística? E quem não usa colete, ou quem nunca andou em pista, num verdadeiro autódromo, e não deslizou o joelho no chão, é ou não um verdadeiro motard? 

Publicado na edição nº 234 da Revista MOTOCICLISMO


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