quarta-feira, maio 05, 2004

Elas





Sobre elas, o que me fascina é o facto de exercerem sobre nós um desafio, com um tal poder de atracção e fascínio que se nos tornam indispensáveis. É aquele poder incontestado de lhes aplicar a nossa experiência, a nossa sabedoria, as nossas técnicas, a nossa força, o nosso sentido estético, o nosso estado de espírito, e elas, nem sequer hesitarem em nos obedecer.
Desenvolvem-se então as mais belas relações: a Valentia e o Medo, o Prazer com o Desconforto, até a Aceleração e a Travagem. Uma dicotomia que origina assim como que:
"um sentimento viciante, por vezes até escravizante que, de repente, e sem qualquer razão aparente, cria a ânsia urgente de querer mais e mais..."
É aquela sensação de abrir as pernas, e sentir entre elas algo arredondado, algo que se agacha sob o nosso peso, algo que nos aquece bem no baixo ventre. Algo que reage ao nosso toque, que geme aos movimentos que lhes fazemos com o pulso, que nos inebria com o cheiro dos seus fluídos. E que normalmente se aguenta em pé, apesar de todos os esforços e desafios a que as sujeitamos.
Ou que então, ali ficam sozinhas, encostadas naquilo que com um movimento de desprezo lhes atirámos com o pé: um descanso, uma pequena bengala. E que mesmo sem o nosso corpo para as aquecer, mesmo sem serem escutadas, elas por ali ficam à nossa espera, hibernantes e resignadas.
E que quando não ficam... Quando nos fazem falta e vamos por elas, e elas não estão!?
Pensar que aquela que tanto estimamos, e tanto carinho nos gastou, desapareceu, poderá estar a ser maltratada, subjugada, quem sabe até violada! Ai que ainda me fica gripada! Coitada! Pobre de mim!
A frustração é inevitável. A perca é tão grande que ali ficamos, parados, sem nos podermos mover, abandonados, entregues apenas a nós próprios, desesperados, inconsolados.
Mas ainda assim, no meio do sofrimento, se uma outra por nós passa, insinuante e bem pintada, ronronante ou ofegante, nenhum de nós resiste em lhe dar uma boa olhada! Muito engraçada - desabafa-se então! Ou não!